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A COMUNIDADE LOCAL E A INTERPRETAÇÃO PATRIMONIAL PARA O VISITANTE[*]


Fernanda Alves de Almeida Rocha

Centro Universitário UNA, Belo Horizonte, MG.

E-mail: fe.alves@gmail.com

Vladimir da Cunha Veloso

Centro Universitário UNA, Belo Horizonte, MG.

E-mail: vladimircunha2000@yahoo.com.br

Elaine Cristina Linhares Diniz

Centro Universitário UNA, Belo Horizonte, MG.

E-mail: elainecrilidi@yahoo.com.br

RESUMO

Dentro da visão do turismo, o patrimônio cultural tem papel fundamental para o seu desenvolvimento, tendo em vista que os bens culturais podem compor uma excelente base de atrativos turísticos, seja através de bens tangíveis como intangíveis. O presente artigo tem como objetivo analisar a importância da participação da comunidade local no processo de planejamento e aplicação da interpretação patrimonial, buscando assim, trabalhar a preservação de seus patrimônios e do trabalho de sua identidade. O trabalho foi desenvolvido com base em pesquisa bibliográfica e documental sobre os tópicos que compõem o tema.

Palavras-chaves: Cultura; interpretação patrimonial; comunidade; turismo cultural.

INTRODUÇÃO

O que busca o olhar do visitante? O que valoriza sua visita? O que o lugar tem a lhe oferecer? O que a comunidade quer lhe mostrar? Como interpretar seus atrativos? Estas são questões de primeira ordem, a serem respondidas sempre que um lugar se abre para receber visitantes e turistas (MURTA e ALBANO, 2002. p.09).

O turismo é considerado um fenômeno social uma vez que constitui-se em uma atividade que envolve o movimento constante de uma grande quantidade de pessoas, que se deslocam do seu local de origem para um destino (e vice-versa); passam a ser habitantes temporários de locais nos quais não residem, ocasionando assim, diversas influências e alterações diretas na comunidade receptora, que podem ser econômicas, políticas, culturais, sociais e ambientais. Atualmente, do ponto de vista econômico, a atividade turística tornou-se a maior do planeta, ultrapassando setores tradicionais como a indústria automobilística, eletrônica e petrolífera. (BANDUCCI JR, BARRETTO, 2001; DIAS, 2003; LAWS, 2004).

Considerado um fenômeno social porque faz parte das necessidades criadas pelo homem ao longo do tempo, o turismo, a partir do século XIX, deixou de ser uma atividade exclusiva para as camadas mais abastadas da sociedade ou sinônimo de quem não trabalha para, na atualidade, transformar-se na forma mais procurada de lazer. Fazer turismo tornou-se uma aspiração de todos os incluídos na sociedade global de consumo.

Desta forma, pode-se considerar que o turismo, enquanto um fenômeno social, existe em função do turista, e é em torno dele que se desenvolvem todas as outras inter-relações provenientes da atividade. Segundo Baptista,

Não é fácil definir turista, pois trata-se da atuação de um indivíduo em viagem cuja decisão foi tomada com base em percepções, interpretações, motivações, restrições e incentivos e representa manifestações, atitudes e atividades, tudo relacionado com fatores psicológicos, educacionais, culturais, étnicos, econômicos, sociais e políticos, viagem essa que envolve uma multiplicidade de agentes institucionais e empresariais desde que o viajante parte até que volta, situação que, por isso, também se estende ao próprio turismo como setor de atividade que, sendo fundamentalmente econômica, tem igualmente significados, implicações, relações e incidências sociais, culturais e ambientais (BAPTISTA apud DIAS, 2003. p.35).

Conforme Boullón (apud DIAS, 2003. p.35), as causas de uma viagem obrigatória podem resumir-se em oito, consideradas como motivações psicológicas, que transformam o viajante em turista: motivos culturais ou educacionais, saúde, desejo de mudança, compras, hedonismo, descanso, prática de esporte e conhecimento.

É possível considerar que, mesmo existindo diversas motivações para as viagens, de uma forma geral, todas estão relacionadas à fuga do cotidiano e descanso físico e mental. Desta forma, “o turismo constitui-se cada vez mais numa necessidade fundamental do ser humano, incorporando-se como uma das variáveis que medem sua qualidade de vida” (DIAS, 2003. p.38-39).

Por outro lado, no que tange o desenvolvimento da atividade, Murta e Albano (2002) salientam que o turismo, como prática econômica precisa encontrar formas mais respeitosas de se inserir no cotidiano das comunidades receptivas, sendo fundamental que os investimentos sejam adequados à vocação do lugar, possibilitando à população participar e usufruir os resultados obtidos.

As atrações de visitação a patrimônio são uma das opções de se desenvolver a atividade de forma sustentável, já que “elas podem fornecer uma série de agradáveis experiências de lazer, focar a identidade da comunidade, fontes para a educação e meios de geração econômica.” (DRUMOND & YEOMAN, 2004. p.6).

Desta forma, o presente artigo tem como objetivo analisar a importância da participação da comunidade local no processo de planejamento e aplicação da interpretação patrimonial, buscando assim, trabalhar a preservação de seus patrimônios e do trabalho de sua identidade. O trabalho foi desenvolvido com base em pesquisa bibliográfica e documental sobre os tópicos que compõem o tema.

CULTURA E TURISMO CULTURAL

O senso comum identifica cultura como o domínio de certos conhecimentos e habilidades que permitem a algumas pessoas compreender e usufruir de bens ditos superiores, como obras de arte, literatura erudita, espetáculos teatrais etc. Para muitos, culto é aquele que tem informações e conhecimentos formais.  O conceito antropológico de cultura, entretanto, estende essa noção a todos os seres humanos, postulando que todos os homens são portadores de capacidades, sendo, portanto, capazes de desenvolver atividades complexas, como é o caso da linguagem. (NEVES, 2003. p.49-50).

A relação do homem e a natureza nos demonstram que este produz comportamento artificial, utilizando-se muito pouco de transmissão genética e muito do aprendizado do convívio social a partir de suas experiências vividas em grupo. Desta forma, a visão de cultura a partir da antropologia nos permite dizer que o comportamento humano baseia-se em necessidades materiais, utilitárias e simbólicas.

A cultura representa as idéias, os conceitos e os valores que regulam coletivamente e individualmente tais relações, transmitidos no processo de socialização, por sua vez criados pela transformação ou invenção, cuja qualidade mais significativa é de ser basicamente homogênea (MARTINS, 2003. p.44).

Tem-se assim, que o conceito de cultura baseia-se no conjunto de bens materiais e imateriais, os quais visam a representatividade cultural de um grupo ou de uma sociedade.

Turismo Cultural

O turismo, numa abordagem stricto sensu, é um tipo específico de deslocamento praticado por um tipo específico de viajante, que é o turista. Existem muitos tipos de viajantes e o que os diferencia dos turistas são características como o objetivo da viagem, o tempo de permanência fora de casa e o estado de espírito (BANDUCCI JR, BARRETTO, 2001. p.7).

O turismo, além de um importante instrumento de promoção social de dinamização econômica, é também, e principalmente, uma atividade cultural. Conhecer lugares, assistir à apresentações de manifestações artísticas, degustar pratos peculiares de cada região, compartilhar com nativos a experiência de uma feira local, é conhecer elementos que dizem respeito a pessoas e suas sensibilidades, suas normas e valores, suas emoções. É um exercício de se colocar por alguns momentos na condição do outro que experimenta cotidianamente aquilo que, aos turistas, é proporcionado fortuitamente. O que se quer quando se viaja, senão apreender o outro, aquele que recebe? Se cultura é um processo dinâmico, em que novos usos são dados aos produtos culturais, também o turismo participa desse processo.

O turismo está intimamente ligado ao aspecto cultural, tendo em vista que a maior parte do fluxo turístico em determinados destinos se dá durante as festas, as quais representam as manifestações culturais de um determinado lugar, tais como: carnaval no Rio e Salvador, as festas juninas na região nordeste do Brasil, dentre várias outras por todo o país. Isto posto, demonstra que o folclore é a mais legítima forma de expressão cultural de um povo, expressando assim suas histórias e os seus rituais, os quais não somente encantam o turista, mas também permitem o contato direto com as manifestações e a identidade cultural da população local. Observa-se, portanto, que os eventos culturais promovem uma importante movimentação turística aos destinos.

(…) entende-se por “turismo cultural” todo turismo em que o principal atrativo não seja a natureza, mas algum aspecto da cultura humana. Esse aspecto pode ser a história, o cotidiano, o artesanato ou qualquer outro dos inúmeros aspectos que o conceito de cultura abrange (BARRETO, 2000. p.19-20).

De acordo com a Organização Mundial do Turismo, turismo cultural seria caracterizado pela procura por estudos, cultura, artes cênicas, festivais, monumentos, sítios históricos ou arqueológicos, manifestações folclóricas ou peregrinações (BARRETO, 2000. p.20).

O turismo cultural faz com que os consumidores deixem de ser passivos à cultura, podendo desta forma interagir com as diversas formas de manifestações culturais. Desta maneira, o turista poderá aproveitar muito melhor a sua viagem e ou sua atividade de lazer, isto faz com que o mesmo possa valorizar a diversidade cultural e até mesmo possibilitar uma postura do cidadão turista de forma menos discriminatória em relação a outras culturas.

A interface entre o turismo e o patrimônio cultural tende a aproximar as culturas de diversas partes do Brasil, contribuindo assim para a divulgação da diversidade cultural e o potencial turístico de várias regiões do país.

Na atualidade, aumenta o número de pessoas preocupadas em fugir da rotina buscando prazer por novos conhecimentos, como o proporcionado pelo turismo cultural, que possibilita atender a vontade do viajante que tem como objetivo entrar em contato com diferentes hábitos e costumes, além de conhecer outras culturas.

Conforme pesquisa disponibilizada pelo Ministério do Turismo, o turismo cultural aparece no Brasil em terceiro lugar, perdendo para o ecoturismo e para o turismo de aventura. Ainda de acordo com o Ministério, o turismo cultural é uma via de valorização do patrimônio, que além de proporcionar o conhecimento e o respeito ao patrimônio, é possível desenvolver a sustentabilidade econômica nos destinos, buscando a preservação dos bens através da cobrança de taxas pagas pelos turistas visitantes (IPHAN, 2006).

PATRIMÔNIO CULTURAL E IDENTIDADES

Conceito de patrimônio cultural


A palavra patrimônio tem vários significados. O mais comum é conjunto de bens que uma pessoa ou uma entidade possuem. Transportado a um determinado território, o patrimônio passa a ser o conjunto de bens que estão dentro de seus limites e de competência administrativa. Assim, patrimônio nacional, por exemplo, é o conjunto de bens que pertencem a determinado país. (BARRETO, 2000. p.9)

Considerava-se, até praticamente a primeira metade do século XX, que patrimônio cultural fosse “sinônimo de obras monumentais, obras de arte consagradas, propriedades de grande luxo, associadas às classes dominantes, pertencentes à sociedade política ou civil”. (BARRETO, 2000. p.9)

Atualmente, uma simples definição de patrimônio é “o que é ou pode ser herdado”, onde podemos compreender “tradições, valores, eventos históricos, maquinário industrial de uma época passada, casas históricas, coleções de arte, atividades culturais e riquezas naturais”. Esta infinidade de atrações e atividades que se enquadram no contexto de patrimônio incentivaram, e continuam incentivando, inúmeros destinos a (re) descobrirem seus patrimônios e investirem na atividade turística (DRUMOND & YEOMAN, 2004. p.6).

Segundo Ferreira (2004), patrimônio cultural é “o conjunto de bens culturais de valor reconhecido para um determinado grupo ou para toda a humanidade”. Pode-se dividi-lo, em um primeiro momento, em duas categorias: os bens tangíveis (mais conhecidos, como os monumentos, construções, etc.) e os bens intangíveis (manifestações artísticas e tudo o que é produzido pelo homem). (FERREIRA, 2004; BARRETO, 2000). Desta forma, pode-se afirmar que o patrimônio cultural “abarca todos os aspectos da atividade humana e conduz a uma revalorização natural e do meio ambiente como algo relacionado com o homem e manipulado por ele” (MARTINS, 2003. p.45).

De acordo com o público ao qual destina-se a visitação de determinado patrimônio, suas atrações podem ser desenvolvidas para “entreter, educar, ajudar a manter ou introduzir novamente culturas e tradições, promover o orgulho de uma nação e conservar nosso meio ambiente, entre outras coisas” (DRUMOND & YEOMAN, 2004. p.8).

A construção do patrimônio cultural é feita através de uma percepção de para quem e porque preservar; baseado em um entendimento entre a comunidade e o setor público local. A mobilização em prol do interesse na preservação do patrimônio e o seu significado depende das circunstâncias, interesses ou necessidades do momento. (BANDUCCI & BARRETTO, 2001; NEVES, 2003)

A preservação do patrimônio cultural tem importância fundamental para o desenvolvimento e enriquecimento de um povo e de sua cultura.  Os bens culturais guardam informações, significados, mensagens, registros da história humana ­refletem idéias, crenças, costumes, gosto estético, conhecimento tecnológico, condições sociais, econômicas e políticas de um grupo em determinada época (FERREIRA, 2004).

Dessa forma, a interação do visitante com o patrimônio cultural deve ser ativa, dinâmica, intrigante e transformadora; pois somente assim a pessoa poderá refletir e criticar sobre o que vê, escuta, sente ou percebe, ajudando-a a se localizar no grupo cultural a que pertence e a conhecer e entender outras formas da cultura. Somente através desta percepção que pode-se trabalhar a necessidade da preservação do patrimônio.

Dentro da visão do turismo, o patrimônio cultural tem papel fundamental para o seu desenvolvimento, tendo em vista que os bens culturais podem compor uma excelente base de atrativos turísticos, seja através de bens tangíveis como intangíveis.

Identidade: relação da comunidade com o patrimônio – identificação


O indivíduo se refere ao time, à turma, à equipe de trabalho, à família ou à cidade a que pertence e se sente integrado, impregnado pelo cheiro do lugar, pela maneira do povo e sentimento de pertencer, ou ainda quando percebe em alguma situação, algo que o liga àquele lugar, ao povo ou ao grupo, ele está sentindo o “pertenço”, sou aquilo, sou de lá. (MARTINS, 2003. p.42).

Para que possa ser reconhecido em seu meio, é necessário que seja feito um estudo do patrimônio cultural, onde possa ser contextualizado de forma social, econômica, histórica, buscando assim o resgate de sua identidade junto à comunidade, seja em qual aspecto for. (MARTINS, 2003. p.45).

Assim como a identidade de um indivíduo ou de uma família pode ser definida pela posse de objetos que foram herdados e que permanecem na família por várias gerações, também a identidade de uma nação pode ser definida pelos seus monumentos – aquele conjunto de bens culturais associados ao passado nacional. Esses bens constituem um tipo especial de propriedade: a eles se atribui a capacidade de evocar o passado e, desse modo, estabelecer uma ligação entre passado, presente e futuro. Em outras palavras, eles garantem a continuidade da nação no tempo (GONÇALVES apud BARRETO, 2000. p.10).

A identidade pode ser considerada como o sentido de pertencer à alguém ou algum lugar, como pertencer a determinados grupos ou a papéis sociais, onde o indivíduo se reconhece. Ainda entende-se como o sentido de algo pertencer à uma pessoa. Por depender muito da relação com os outros, a identidade é reconhecida como flexível e sujeita à mudanças e inovações. A identidade passa então a ser percebida como uma construção social e que pode ser mudada (BARRETTO, 2000; MARTINS, 2003).

Atualmente, percebemos que a preservação do patrimônio cultural subsidia a memória das sociedades permitindo ao homem ter conhecimento do passado, produzindo-se assim um sentimento de pertencimento de um determinado espaço e cultura, os quais formam a base da identidade coletiva. Portanto a preservação dos componentes da cultura de uma determinada sociedade tais como: documentos escritos, objetos, imagens, traços urbanos, áreas naturais, paisagens e outros, fazem com que esta possa perceber a si mesma.

A conservação do patrimônio histórico passa pelo processo de conservação e a recuperação da memória, diretamente ligadas à manutenção da identidade dos povos: “A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia” (LE GOFF apud BARRETTO, 2000. p. 43). Desta forma a comunidade terá a oportunidade de entender seu passado, resgatar suas referências históricas e reconhecer suas identidades.

Manter algum tipo de identidade – étnica, local ou regional – parece ser essencial para que as pessoas se sintam seguras, unidas por laços extemporâneos a seus antepassados, a um local, a uma terra, a costumes e hábitos que lhes dão segurança, que lhes informam quem são e de onde vêm, enfim, para que não se percam no turbilhão de informações, mudanças repentinas e quantidade de estímulos que o mundo atual oferece. (BARRETTO, 2000. p. 46).

O aumento significativo do turismo em determinados locais provoca, em muitos casos, uma repulsa aos turistas por parte do morador local, uma vez que se sente ameaçado e excluído daquele meio. Não se deve trabalhar o destino somente para o visitante, esquecendo­-se da comunidade,que utiliza aquele mesmo ambiente em seu momento de lazer.

Os moradores, ao mesmo tempo em que vêem os bens como algo voltado aos turistas, também reivindicam o reconhecimento desse acervo como parte de sua identidade, resultando em uma relação tensa com essa prática freqüentemente incômoda às suas vidas cotidianas. Sentem-se excluídos, ao mesmo tempo em que são os anfitriões de quem vem visitar e conhecer a sua cidade. (LÓPES, 2001. p.79­80)

Recuperar a memória coletiva torna-se fator fundamental no processo de recuperação e fortalecimento da identidade local bem como de seu patrimônio. Como conseqüência, tem-se a valorização da cultura e do patrimônio local, primeiramente por parte da comunidade seguida pelos turistas: “só por esta forma se torna sustentável, gerando a preservação de ruas, cidades, centros históricos, encenações de feitos heróicos e até guerrilhas” (MARTINS, 2003. p.47).

INTERPRETAÇÃO PATRIMONIAL

Conceito

Biólogos e ecologistas, principalmente, têm-se preocupado com os impactos do turismo na natureza; sociólogos e antropólogos têm-se preocupado com os impactos nas populações receptoras, ao passo que historiadores e arquitetos têm prestado a atenção nas áreas da cultura material, verificando os efeitos do turismo em bens culturais, tais como o patrimônio histórico. (BARRETTO, 2000. p. 7)

A interpretação pode ser considerada como um processo onde se oferece uma maior interação e, conseqüentemente, uma valorização da experiência no lugar, através de diversas técnicas de fornecimento de informações que destacam a história e as características culturais e ambientais do local.

O desejo pessoal e local de falar com orgulho do passado histórico, de proezas recentes, ou mesmo de problemas atuais, bem como a coleta de evidências pessoais da história, são fundamentais no processo de interpretação e valorização. Em qualquer cultura, as lembranças pessoais e as experiências passadas, fotografias desbotadas e registros de eventos familiares, fornecendo marcos de vidas indivi­duais, são de grande valor para o processo de interpretação do patrimônio. (MURTA, 2005. p.19)

A definição clássica, e por conseqüência a mais conhecida, de interpretação ambiental foi criada Freeman Tilden (1967), o “pai” da interpretação:

uma atividade educacional que objetiva revelar significados e relações através da utilização de objetos originais, de experiência de primeira-mão, bem como de mídia ilustrativa, ao invés de simplesmente comunicar informações factuais (TILDEN apud MURTA, 2005. p.19).

Desta forma, o objetivo geral da interpretação é aumentar a compreensão pública do tema ou do ambiente, induzindo a atitudes de respeito e proteção: “Através da interpretação, a compreensão; Através da compreensão, a apreciação, e Através da apreciação, a proteção” (TILDEN apud MURTA, 2005. p.20).

A boa interpretação trabalha a qualidade do novo conhecimento através da sensibilização, ao contrário de apenas repassar informações. “O principal foco da interpretação é estabelecer uma comunicação efetiva com o visitante, (…) a preservação do patrimônio e o desenvolvimento cultural das comunidades locais”. (MURTA e ALBANO, 2002. p.10). Para Ferreira (2004), a interpretação é a “forma escrita e visual de informar atrações turísticas através da sinalização turística, sob a forma de placas, mapas, painéis, roteiros, panfletos, guias de turismo, guias turísticos e a própria população”.

A interpretação do patrimônio, como esclarecem as organizadoras da obra, é uma narrativa que pode se valer de diversos recursos e suportes para contar a história do local, valorizando o significado e a experiência da viagem. Os elementos principais que compõem a essência da interpretação são os lugares que representam a memória local e a identidade do lugar, representada pelos hábitos, costumes, histórias e lendas selecionadas coletivamente.

Entende-se então a interpretação como a capacidade de ensinar ao viajante, de traduzir e esclarecer informações relacionadas com a história do lugar, de elaborar meios de tornar acessível os diferentes significados do patrimônio, fazendo com que este mesmo patrimônio deixe de ser objeto de mera contemplação e passe a ser um meio de conhecer sua própria cultura e identidade. Esta capacidade deve ser dotada de técnicas específicas que possibilitem atingir estes objetivos sem tornar o “ensino” uma atividade maçante e cansativa.

Interpretação: Como funciona, características.

Numa cultura ocidental globalizada, que busca entretenimento a todo custo, é funda­mental tocar a emoção, provocar as pessoas, estimular novas formas de olhar, de ver e apreciar. (MURTA e ALBANO, 2002. p.10).

O foco principal da interpretação é estabelecer comunicação direta com o visitante, de modo a fazê-lo entender o processo histórico-cultural dos bens mantendo a interface do turismo com o desenvolvimento cultural e social local.

Mais do que a informação que pode ser passada com a sinalização adequada à arquitetura, por exemplo, a sinalização interpretativa convence o visitante do valor que o patrimônio tem para a formação do país ou da localidade, resgatando a memória e identidade nacionais ou locais, maneira encontrada para conservar os bens existentes.

De acordo com Ferreira (2004), a interpretação deve:

  • Provocar a atenção, a curiosidade e interesse na transmissão de mensagens ao público, de forma clara e lúdica;
  • Revelar a essência do lugar e o seu significado para a formação da cultura e história local e nacional;
  • Relacionar com o cotidiano do visitante;
  • Unir cada monumento com o todo, visto que cada lugar possui peculiaridades e detalhes diferentes entre si, mas unido com outros transmite coerência de formas, cores, etc.;
  • Causar impacto, por ser arte, deve produzir sensações e emoções em quem vê, por isso a atividade é lúdica.

A interpretação deve ser desenvolvida de sustentável, minimizando os impactos negativos que podem ser gerados pelo turismo e ajudando no trabalho de conservação do patrimônio, tanto do ponto de vista de conscientização dos turistas e da comunidade local como de manutenção do espaço / bem. Esta manutenção pode ser garantida através da cobrança de ingressos para a visitação.

Existem inúmeras técnicas de interpretação porém, não basta simplesmente escolher uma e utilizá-la em um determinado lugar. Além de estar em harmonia com o ambiente, deve­-se desenvolver o plano interpretativo de cada local de acordo com suas características, da característica de seu público alvo e, principalmente, conforme relação do espaço com a comunidade local.

A COMUNIDADE LOCAL E OS TURISTAS


Pensar as trocas travadas de forma assimétrica entre os visitantes e os visitados é de certa forma encarar o turismo como grande articulador do contato dos diferentes, dos outros, de mercados que se conhecem e se estranham (DIAS, 2003. p.125).

O turismo influencia de maneira sociocultural tanto os turistas como a comunidade autóctone, bem como a relação entre esses dois atores. Com o advento da tecnologia, principalmente a que age sobre os transportes, facilitando assim a comunicação e a troca de experiências entre diferentes povos e culturas; o turismo tem desenvolvido um importante papel na difusão destes costumes, valores, conhecimentos, jeitos de ser e viver, etc. Esta propagação contribui, até mesmo, para a melhora na relação entre os povos, aumentando o respeito pelas culturas diferentes uma vez que se começa a entender mais este modo de ser.

Quando esta relação não é bem trabalhada, o contrário também pode acontecer. A influência desordenada de culturas estrangeiras sobre um país ou comunidade pode afetar negativamente aquele povo, sendo capaz de fazer com que sua identidade seja perdida, seus costumes esquecidos, desgastando a relação turista-morador e, em alguns casos, promovendo até uma não aceitação do turismo por parte dos autóctones.

Se de um lado, a mídia internacional tem funcionado de forma a mercantilizar experiência do visitante – tomando tanto a imagem quanto a realidade do produto muito semelhantes em todos os países e continentes, por outro lado, a maior fonte de diferenciação continua sendo a contribuição específica dos aspectos naturais, físicos e humanos de uma localidade. Algumas características centrais da comunidade local são exatamente o que o visitante quer ver, experimentar, compartilhar e talvez levar consigo. O visitante gosta de entrar em um mundo diferente do seu e de experimentar coisas e produtos desconhecidos, até mesmo atitudes diferentes em relação à sociedade e ao meio ambiente. (GOODEY, 2002. p. 50)

Assim como a comunidade pode não aceitar mais o turista, este pode não ter mais interesse por aquela sociedade. A perda da identidade de uma cidade, por exemplo, pode provocar uma diminuição do interesse por parte do visitante, já que, muitas vezes, as características daquele povo são mais interessantes do que os atrativos físicos situados naquele espaço. Hotéis, cachoeiras, restaurantes, parques aquáticos, praias, montanhas existem em diversas partes do mundo, mas a cultura de determinado é uma experiência única que só pode ser vivida em um lugar.

A relação entre eles


As interações entre a comunidade receptora e os turistas provocam modificações em todos os atores que participam dessem processo. No relacionamento, os residentes têm a perspectiva de obter um ganho econômico no contato com os visitantes, no entanto ocorrem outras experiências de fundo social e cultural que não eram esperadas, e muitas vezes indesejadas. Por outro lado, temos que considerar que o visitante é um estranho e muitas vezes pode ficar bastante vulnerável em relação à população local. Os turistas, por sua vez, apresentam enorme variedade de reações em suas experiências de viagem. Muitos visitantes, assim que tomam consciência de que estão longe de casa, sentem-se liberados de suas inibições normais e passam a proceder como pessoas distintas, adotando comportamentos sociais que estão longe dos adotados em seu dia-a-dia (DIAS, 2003. p. 126-127).

A relação comunidade-turista limita-se ao tempo em que o segundo permanece no local visitado. Na maioria das vezes, acontece nas conhecidas altas temporadas, onde um grande número de turistas “invade” aquela comunidade. Cada um tem o seu interesse durante esta curta relação, tentando, muitas vezes, tirar o maior proveito dela, e nem sempre de forma positiva.

(…) grande parte dos turistas desloca-se à procura de prazer em comunidades receptoras onde, via de regra, as condições socioeconômicas seguem a lógica da exclusão social. A maior parte dos anfitriões vê nos turistas fontes de renda e não pessoas. As trocas acontecem entre sujeitos sociais que não enxergam a si mesmos como tais, a não ser como consumidores e prestadores de serviços, respectivamente. (BANDUCCI JR, BARRETTO, 2001. p.11)

A interpretação pode trabalhar, dentro de suas ferramentas, um melhor relacionamento entre os dois principais atores do turismo. A diminuição da exploração de qualquer uma das partes pode ser trabalhada de forma a criar uma consciência dos dois lados, ressaltando que a relação de dependência é de “mão-dupla” e é importante que a troca de experiências seja saudável para os dois lados.

O papel da comunidade local no planejamento / desenvolvimento da interpretação patrimonial

Como já foi apresentado, é de extrema importância que a comunidade se sinta inserida do processo de desenvolvimento do turismo local. Seu reconhecimento no meio irá influenciar diretamente o sucesso da atividade. Uma das formas que este reconhecimento é percebido é através do desenvolvimento sustentável da economia local. Se mantendo através da atividade, os moradores irão cuidar mais dos bens da cidade, exigirão providências para a manutenção e conservação dos atrativos turísticos e de sua cultura, ou seja, valorizarão tudo aquilo que eles reconhecem como fatores importantes para a permanência da atividade.

O papel da comunidade receptora neste processo também é fundamental porque é ela que dá à destinação a sua personalidade, seu caráter único; a diferenciação do produto turístico, excluindo aquele destino dos lugares comuns. Desta forma, ela é peça fundamental na composição do produto e na operacionalização das ações.

Nesse sentido, envolvendo desde o início a população do lugar, a interpretação pode ser um poderoso aliado do desenvolvimento local sustentável. Uma comunidade que não conhece a si mesma dificilmente poderá comunicar a importância de seu patrimônio, seja na interação com os visitantes, seja na sensibilização das operadoras. A prática interpretativa deve, portanto, promover a discussão entre os vários segmentos sociais sobre aquilo que toma seu lugar especial e diferente. Deve também levar os moradores a (re) descobrir novas formas de olhar e apreciar seu lugar, de forma a desenvolver entre eles atitudes preservacionistas. Finalmente, deve despertar novas vocações e possibilitar oportunidades de trabalho e renda ligados ao turismo. (MURTA e ALBANO, 2002. p.11)

A preservação do patrimônio cultural é um processo social, uma prática que acrescenta novos bens, valores e processos culturais à experiência envolvida. Focaliza-se o processo de construção e apreensão desses bens em torno de uma pretensa memória nacional a partir dos seus moradores, do modo como estes receberam, interpretam e recriam esse sentimento de pertencimento nacional (LÓPES, 2001. p.80).

Para o desenvolvimento cultural das comunidades bem como o do turismo sustentável é necessário que a interpretação esteja presente no desenvolvimento da atividade turística como um todo, envolvendo a comunidade em todos os seus processos, e não apenas utilizando as técnicas interpretativas como uma forma de atração.

CONCLUSÃO


O tema escolhido para este artigo, “a comunidade local e a interpretação patrimonial para o visitante”, pretende demonstrar que a cultura local é de fundamental relevância para o desenvolvimento do turismo, e que a comunidade local tem que efetivamente participar de todo o processo de construção da identidade de sua localidade, sendo esta a única e legítima guardiã das suas tradições culturais.

O turismo cultural permite que comunidades onde suas tradições culturais e seu patrimônio cultural estão sendo esquecidos, consigam promover um resgate de sua identidade um desenvolvimento e fortalecimento nos âmbito social, econômico e cultural. A conscientização da comunidade de forma a fazê-la entender que a preservação do seu patrimônio cultural, em todos os seus aspectos, são fundamentais para a criação de novas perspectivas e das melhorias relativas às suas questões sócio-econômicas, colocam o turismo como indutor de uma nova fase nesta localidade.

No entanto, é importante ressaltar que o turismo também tem o poder de promover certos conflitos com a comunidade quando ele não é bem planejado e estruturado. A relação turista-visitante pode sofrer atrito se primeira não for preparada para receber seus visitantes. Esta preparação está ligada tanto ao fato dos moradores correrem o risco de perder suas características por diversas influências externas, como no que diz respeito ao processo de inserir, e fazer com que a comunidade assim se sinta, no processo de planejamento tanto da atividade turística como um todo como também no desenvolvimento da interpretação patrimonial. Esta percepção é de extrema importância para o resgate e preservação da cultura, identidade e patrimônio da comunidade.

Outro ponto de conflito que pode ser citado é a relação de consumo trabalhada entre estes dois atores. A população local deve perceber o turista primeiramente como possíveis embaixadores da sua cultura e do destino, e não apenas como fonte de lucro. Já o turista não deve perceber a comunidade apenas como um prestador de serviço, mas como uma oportunidade única de se relacionar e aprender com uma cultura diferente da sua.

A interpretação patrimonial também é de extrema importância para o turista. A interação, aprendizado, conscientização, sensibilização, preservação e valorização do patrimônio proporcionado pela interpretação, transformarão o que poderia ser uma simples viagem em uma experiência única e marcante para o turista. As técnicas de interpretação também promoverão uma valorização do destino turístico e o transformarão em um destino diferente e atraente para diferentes públicos.

Este estudo procurou demonstrar que comunidades conhecedoras do seu real patrimônio cultural podem se transformar em destinos extremamente atraentes através do seu diferencial em valorizar e saber proporcionar ao turista uma experiência que ele só vai encontrar ali: o contato com a sua cultura.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BARRETTO, Margarita. Turismo e legado cultural: As possibilidades do planejamento. Campinas, SP: Papirus, 2000.

BANDUCCI JR, Álvaro; BARRETTO, Margarita (orgs).Turismo e identidade local: Uma visão antropológica. Campinas, SP: Papirus, 2001.

DIAS, Reinaldo. Sociologia do Turismo. São Paulo: Atlas, 2003.

DRUMOND, Siobhan; YEOMAN, Ian. trad. Helio Hintze, Ana Cristina Freitas. Questões de qualidade nas atrações de visitação a patrimônio. São Paulo: Roca, 2004.

FERREIRA, Simone. A interpretação do patrimônio histórico de Ouro Preto – MG e a problemática da preservação e conservação dos bens tombados. 15/09/2004. Disponível em: <http://www.etur.com.br/conteudocompleto.asp?IDConteudo=2939> .Acesso em 05/10/06

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[*] Trabalho completo publicado em anais de congresso: ROCHA, Fernanda Alves de Almeida ; DINIZ, Elaine Cristina Linhares ; VELOSO, Vladimir da Cunha . A Comunidade Local e a Interpretação Patrimonial para o Visitante. In: X Encontro Nacional de Turismo com Base Local, 2007, João Pessoa – PB. Anais do X ENTBL. João Pessoa, 2007. p. 348-357.

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